Espécie em extinção
Pouco a pouco, o sistema partidário brasileiro vai se realinhando. E pelo menos três, dos outrora quatro grandes partidos que vêm dominando a política brasileira desde a década de 80, estão em processo de mudança.
Primeiro, o PT. O partido construiu um projeto de poder que vem sendo seguido à risca. Invadiu os grotões, desalojou os coronéis do Nordeste e passou a praticar um tipo de coronelismo do século XXI, totalmente amparado em assistencialismo escancarado, simbolizado pelo Bolsa-Família.
O aparelhamento da máquina pública, exercido com grande entusiasmo pelos petistas desde o primeiro dia do primeiro mandato do presidente Lula, tem alimentado os fortes vínculos do PT com os sindicatos, os movimentos sociais e as corporações profissionais.
É com este figurino que o partido deve se apresentar nas eleições municipais de 2008, etapa importante da consolidação do partido nos currais coronelistas e preliminar crucial para as eleições presidenciais de 2010.
Segundo, o PMDB. Cada vez mais um partido federativo, a mais formidável máquina eleitoral do país. Maior bancada de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores. Com isso, o partido credenciou-se como o fiador da estabilidade do sistema político brasileiro.
Atualmente, ninguém governa o Brasil sem o PMDB. Até pouco tempo, também não se governava o Brasil com o PMDB, tendo em vista a total desarticulação do partido. Entretanto, a vitória do grupo de Michel Temer nas eleições para a presidência nacional do PMDB, uniu o partido em torno da coalizão com o PT e da efetiva partilha do governo.
Se o PT vai concordar em partilhar o poder real, é outra história, a ser vivida nos próximos anos.
E o PFL? Decidiu refundar-se. Desalojado pelo PT no Nordeste, propõe-se a abandonar o coronelismo e optar pelas classes médias urbanas.
Aproveita que está no governo das duas maiores cidades do país (São Paulo e Rio) e tenta consolidar-se no Sudeste e no Sul, ocupando o lugar que foi do PT, com temas caros à classe média, como carga tributária, defesa da federação, propostas para o desenvolvimento, defesa de teses ambientais.
Vai promover uma repaginação completa: desde o nome (passa a ser chamar Democratas) até o comando. Deixa a presidência o ex-senador Jorge Bornhausen e assume o jovem deputado Rodrigo Maia. É um importante esforço de atualização e de modernização do partido.
Toda esta movimentação só realça ainda mais o drama dos tucanos. O PSDB não é um partido de massas, não tem ligação com sindicatos nem com corporações profissionais. Também não é um partido federativo. Cresceu como um partido de quadros, com um projeto nacional.
Mas os tucanos perderam a bandeira da estabilidade econômica para Lula, não souberam defender o processo de privatização, não levaram adiante o legado do governo Fernando Henrique. E mais importante: não sabem fazer oposição.
Resultado: ficaram obsoletos. Não têm identidade, não têm projeto, não têm bandeira, não têm rumo.
Hoje, tucanos são uma espécie em extinção. Mais ou menos como o mico-leão dourado ou a ararinha azul. Se não prestarem atenção, correm o risco de desaparecer. Ou pior, de afundar na irrelevância.
Lucia Hippolito é cientista política