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Arquivo 11 – 26/8/2005

Posted by tunico em março 12, 2007

Belo artigo.Reflete o que também penso

O herdeiro da Emília

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Não sei se os leitores do blog do Noblat leram o excelente artigo de Ferreira Gullar, “Lula foi mesmo traído?”, publicado na ´Folha de São Paulo`, domingo, 21 de agosto. Com a lucidez que só os poetas têm, Gullar desmonta item por item a tese, defendida por muitos, que Lula não tem responsabilidade pelos desmandos de seu governo e do PT. Tese que o próprio Lula desfila pelo país a fora. O artigo termina assim: “Por isso mesmo, no ambíguo discurso em que pediu desculpas à nação, Lula, ao dizer-se traído, evitou citar nomes. Sabe muito bem que não pode fazê-lo. Sua responsabilidade em tudo o que ocorreu é indiscutível. Nem por isso defenderia a tese do seu impedimento”.

Concordo com o poeta. Impedimento não. Creio que devemos aprender a respeitar os votos que depositamos nas urnas e arcar com as conseqüências. Não podemos continuar a dizer: “Papai, não gostei do brinquedo. Compra outro?”. Temos que agüentar até o fim do mandato e na próxima eleição, votar melhor, mais conscientes e menos influenciados pelos lindos programas de marqueteiros proficientes na venda de produtos industrializados. Mas, e se o presidente estiver sendo sincero? Se for realmente inocente das maracutaias que o rondam?

Ao assumir a Presidência, Lula, apesar de já não ser operário há muito tempo e de estar levando uma confortável vida de pequeno-burguês, deslumbrou-se, o que é muito natural, com as maravilhas oferecidas ao detentor do poder. Vamos e venhamos, é para tontear qualquer um: helicópteros e carrões; possibilidade de viajar para onde quiser, levando os amigos que quiser, no avião que escolheu; casas (o Alvorada e o Torto) fartas, comida, bebida e charutos da melhor qualidade, com campinho para futebol, churrasqueiras de luxo, piscinas, academias de ginástica, empregados para servir a ele e aos seus familiares 24 horas por dia; roupas sob medida à vontade, cabelos bem tratados, dentes recapeados, a pele bem cuidada, olha-se no espelho e nem se reconhece; trata os grandes do mundo de igual para igual; dizem que ele é o máximo, um operário que venceu; os tradutores simultâneos enchem seus ouvidos com os elogios que lhe são dirigidos em diversas línguas; os intelectuais da Pátria Amada se curvam diante dele, garantindo-lhe que a falta de instrução não é um impedimento, é antes um adendo, “o saber de experiência feito”; seus áulicos, conhecedores da fábula “O Corvo e a Raposa”, pedem-lhe que cante e assim pegam o queijo e… o resto é o que estamos vendo.

Vamos ser justos: você não piraria? Pois é.

Só que, de repente, a conta começa a chegar e o presidente fica inteiramente atônito. Ele é inocente, ele não fez mal a ninguém, ele só fez elevar o nome do Brasil, ele fala ao telefone com o Bush, com o Chirac, o Brasil vai presidir a OIC, o BID, sentar no Conselho de Segurança, seus assessores garantem isso tudo. O que é que está acontecendo? Fica inteiramente desarvorado e como qualquer um de nós quando em perigo, corre para o colo da mamãe, que no seu caso é o povo, representante direto de D.Lindu, que não está mais entre nós.

E aí começam essas viagens pelo interior do Brasil, os discursos estrambóticos, o “vão ter que me engolir”. E o eco das palavras de mamãe, senhora analfabeta de vocabulário altamente sofisticado: “meu filho, não perca nunca a esperança, persevere sempre e ande de cabeça erguida porque a verdade prevalecerá”. Fala, num discurso inflamado, que nada o impedirá de viajar por este país, para inaugurar as obras que realizou: “pontes, viadutos, hidrelétricas, estradas”. Viajando de avião ou de helicóptero, debocha de seu antecessor, dizendo que não sabe o que ele fazia, 8 anos e não consertou um quilômetro de estrada! Inaugura pontos de iluminação em Amaralina, fábrica de bolas e camisetas esportivas em Cidade Tiradentes, diz ao povo reunido à sua volta, transportados em ônibus fretados pelo PT, que o colesterol faz mal à saúde, que devem tirar o traseiro do sofá e fazer um exercício, jogar uma bola; ao lançar o Programa Nacional do Esporte, faz questão de dizer que o projeto não se dirige apenas aos atletas, não. Serve também para o cidadão comum e explica: “A pessoa acorda cansada, às 6hs, e vai para a esteira dar uma caminhada reclamando de tudo, de mau humor. Depois de 20 minutos, está se sentindo bem, mais alegre. É o que acontece comigo todos os dias”.

Esteira em casa? Cidadão comum? Mas tem mais.

Ele compara o exercício da Presidência à paternidade, dizendo que “o povo quer um presidente que converse com ele, com a tranqüilidade que uma mãe conversa com um filho, que um pai conversa com um filho. O meu trabalho de presidente não é apenas o de administrar a grande política de Brasília, é cuidar para que a família brasileira viva em harmonia, viva em paz. Que pai goste do filho, que filho goste da mãe e que juntos possam construir a base de nação livre e soberana que nós vamos consagrar no nosso país. Se a família não estiver integrada, se não houver harmonia entre pai, mãe e filho, se não houver harmonia entre todos aqueles que compõem a base da sociedade, que é a estrutura familiar, tudo mais fica difícil”.

O Brasil em estado de choque com as revelações diárias de corrupção, vindas de todos os lados, o PT se apoucando, a base parlamentar do governo desfeita, o Congresso parado, e o presidente viajando e discursando, viajando e discursando. Haja palanque. Haja ônibus fretados. Ontem, 24 de agosto, o presidente em cerimônia de entrega de ambulâncias para o SAMU declarou que “em matéria de saúde os outros países do mundo podem vir ao Brasil e aprender o que é saúde”. Haja Deus!

Diante desse seu palavrório, dessa fuga da realidade, dos elogios ao Palocci por ter enfrentado a Imprensa, numa entrevista “firme”, “uma beleza”, fico, sinceramente, impressionada, e começo a ter dúvidas: será que ele não sabia mesmo de nada? Será que foi traído? Será que é de todo inocente?

Então, a alternativa é terrível. Trata-se de um caso para o Dr. Simão Bacamarte, em Itaguaí, que pode ser acessado através do bruxo do Cosme Velho. Ou então, e queira Monteiro Lobato lá do céu que assim seja, ele é o herdeiro legal da torneirinha de asneiras da Emília.

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