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Posted by tunico em maio 3, 2007

Nós, os idiotas

“Curva a cabeça, sicambro! Adora o que queimaste e queima o que adoraste.” Essas palavras do bispo de Reims assinalaram a conversão de Clóvis ao catolicismo, em 498, e a fundação mítica da França. O rei dos francos abjurou suas convicções pagãs em nome da unidade dos seus súditos e da vitória na guerra. Ele se converteu, não se vendeu.

Na sua posse como ministro, amanhã, Roberto Mangabeira Unger queimará o que escreveu em 2005, quando classificou o governo Lula como “o mais corrupto” da História do país e clamou pelo impeachment do presidente. O intelectual de Harvard começou a se converter à adoração de Lula seis meses depois de publicar seu libelo e, agora, completa o ato de contrição ofertando desculpas ao homem que lhe concede um cargo. O evento consagrará uma operação comercial plena de sentido político.

Uma transação articula-se em torno de dois pólos: o vendedor e o comprador. No caso das convicções do novo ministro, os analistas investigaram as motivações do primeiro pólo, mas pouco se interessaram pelas do segundo.

Mangabeira Unger colecionou fracassos tentando se tornar o Rasputin de Leonel Brizola e de Ciro Gomes. Ao abjurar suas convicções falsificadas para aderir ao salvador da pátria que detém o poder, ele é fiel a si próprio. O arremedo de Rasputin tropical é descartável, mas o líder que o compra não é. Lula não convidou Mangabeira Unger para o círculo ministerial por não ter lido o que este escreveu, mas precisamente por ter lido. Agindo com requintada crueldade, o presidente inventou, para abrigar o intelectual, uma Secretaria de Ações de Longo Prazo que é uma piada literal já alcunhada de Sealopra. Mas a operação não se cinge à humilhação e serve a um objetivo presidencial estratégico: dissolver a ética da convicção no ácido da galhofa pública.

Na pólis grega, a ágora cumpria as funções paralelas de praça do mercado e de fórum político — o lugar do intercâmbio de mercadorias e de idéias. A metáfora do mercado aplica-se à política democrática, na qual o eleitor desempenha o papel de comprador de convicções. A condição para o funcionamento do sistema é que a mercadoria — isto é, a convicção — seja genuína. Quando se difunde a percepção de que no mercado político só se vendem produtos falsificados, os cidadãos abandonam o fórum. Eis a meta perseguida pelo presidente.

Desde a inauguração de seu primeiro mandato, Lula empenha-se em desmoralizar a ética da convicção, a começar pelas suas próprias supostas convicções dos tempos de oposição, agora convertidas em “bravatas”. A cooptação de Mangabeira Unger inscreve-se como marco nessa escalada, pois, ao contrário dos deputados mensaleiros, o intelectual de Harvard aliena o patrimônio da convicção política presumida como verdadeira.

No fórum da ágora, os governantes prezam a convicção divergente, que ajuda a configurar o debate público e confere legitimidade democrática ao programa da maioria. O governo Lula teme a divergência de idéias, que invariavelmente enxerga como um complô. O presidente e seus ministros hostilizam a crítica e tendem a preferir a via dos tribunais à da polêmica. Mas estão sempre prontos a pagar a abjuração com um ducado nos amplos domínios da máquina pública.

A esperteza presidencial semeia o solo fértil da crise do sistema político brasileiro. Há uma semana, sob o argumento de que os eleitores absolveram os parlamentares, a Comissão de Ética da Câmara negou-se a reabrir processo contra deputados reeleitos que, temendo a cassação, renunciaram a seus mandatos no curso do escândalo do mensalão. A falácia que garante a impunidade foi sustentada pelo deputado José Eduardo Martins Cardozo, antigo expoente da ala “ética” do PT.

Enquanto o intelectual de Harvard ilustrava a tese lulista de que tudo está à venda e o santarrão “ético” rasgava sua fantasia, Tasso Jereissati demonstrava que o comércio de convicções não está restrito ao governismo. Ao subir a rampa do palácio para prostrar-se diante de Lula num encontro de pauta sigilosa, o presidente do maior partido de oposição aderia à galhofa patrocinada pelo Planalto. Jereissati está dizendo aos eleitores que, diante de interesses inconfessáveis e articulações secretas, suas palavras solenes de ontem valem tanto quanto as de Mangabeira Unger.

Os cidadãos da pólis grega consideravam-se privilegiados por participar da vida política e cunharam o termo idiotis (idiota) para identificar aqueles que evitavam o fórum da ágora. O lulismo persegue tenazmente a meta de esvaziar o fórum, reduzindo a ágora à praça do mercado e convertendo todos os cidadãos em idiotas. Ao que parece, os chefes oficiais da oposição não têm objeções.

Uma resposta to “”

  1. Abreu said

    Olá Tunico!

    Dias atrás [e não me lembro mais onde foi!] li que alguém estaria traduzindo aqueles discursos incendiários do Mangabeira contra o apedeuta — aqui referidos pelo Demétrio —, para, juntamente com seu discurso de posse, disseminar por toda a Harvard University, com o objetivo de demonstrar aos seus pares e ao alunado quem efetivamente seja esse tal de Mangabeira Unger, ou seja, um verdadeiro desonesto intelectual [no mínimo].

    ‘Lá fora’ as pessoas de bem costumam prezar pela coerência, pela dignidade e pela ética — coisas que Mangabeira atirou definitivamente ao lixo.

    Ele jamais me “enganou” e certamente nunca soube muito bem sobre o que falava, mas falava. Tudo o que ele jamais deixou de desejar foi o ‘poder’. Coitado! Poder político é a coisa mais efêmera e imolizante que exite no universo.

    Não sou religioso nem entendo de religião, mas há pouco, terminei de ouvir de um teólogo [dentro de outro contexto absolutamente distinto do da política], que Jesus Cristo terminou cricificado depois de dizer algo mais ou menos assim: “…dai a César o que é de César e a Jesus o que é de Jesus…” — querendo dizer que Ele não se imiscuiria com política, reservando-Se ao Seu papel religioso.

    Certamente [e esta é uma inferência minha], quando declinou do ‘papel’ de líder político do povo judeum, Ele já sabia daquilo que representa o poder político.

    A Mangabeira, que jamais possuirá dons divinos, seguramente faltam os dons do equilíbrio moral, do bom senso, da coerência e, sobretudo, da ética. Só que ele é “apenas mais um”…

    Saudações,

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