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Posted by tunico em junho 3, 2007

O APAGÃO DAS OPOSIÇÕES

por Augusto de Franco

Este é mesmo o país dos apagões. Para além do apagão energético e do apagão da aviação, há um apagão ético-democrático em curso: o apagão das oposições que está ensejando um apagão intelectual e moral na sociedade brasileira.

Vejam se não tenho razão. Vivemos sob um governo corrupto. Um governo que se aproveitou da tradicional corrupção, endêmica na política nacional, para introduzir uma inédita “corrupção de Estado”. Até agora, porém, parece que grande parte da mídia não soube avaliar a gravidade da situação. Por que? Ora, entre outras coisas, porque as oposições não se esforçaram para esclarecer o que está ocorrendo.

Como as oposições não exercem, de fato, aquele que seria o seu papel de desvelar as origens do descalabro atual, os cidadãos estão apáticos. Os intelectuais entorpecidos. E a mídia, com raras exceções, ainda acha que pode continuar se comportando segundo aquela regra de ouro da sobrevivência econômica: uma no cravo, outra na ferradura.

Em tempo de murici, cada qual cuida de si. E boca de siri. Na mesma linha da sobrevivência, boa parte das organizações da sociedade – as chamadas ONGs – está acomodada diante da possibilidade de emplacar um projetinho em algum órgão do governo. E dezenove em cada vinte grandes e médios empresários acham que a corrupção no governo Lula não prejudica o desenvolvimento (que imaginam, tolamente, que possa ser reduzido à economia).

Por sua vez, os titulares dos governos subnacionais, inclusive os do PSDB e do ex-PFL – em sua imensa maioria – se concentram em colher boas imagens de suas belas realizações administrativas para a próxima campanha eleitoral. E os parlamentares? Bom, os parlamentares…

Mas a questão não é tão difícil de ser compreendida: Lula e o PT, agindo com astúcia, resolveram mimetizar a corrupção tradicional, de caráter egoísta, para poderem aplicar a “corrupção altruísta”, aquela que é feita em nome da causa. E de tal maneira misturaram as coisas, embaraçando os fios, que não se pode mais saber se um Zuleido – dedicado precipuamente a fazer negócios escusos com o governo federal – para além da sua ação ilegal egoísta, também não acaba favorecendo um projeto político particular.

Lula e o PT estão dispostos a pagar todos os tributos ao sistema político tradicional, desde que tenham garantida a possibilidade de continuar aparelhando o governo, infestando-o de alto a baixo de petistas e cutistas, para construir uma espécie de Estado corporativo-partidário dentro do Estado, um Estado paralelo – instrumento privilegiado de conquista de uma hegemonia neopopulista de longa duração. Uma hegemonia que – haja o que houver – assegure a permanência (ou a influência decisiva) do mesmo grupo privado nas esferas do poder.

As oposições, a quem caberia promover o debate sobre tudo isso, fingem que não é com elas. Assim, ninguém consegue ver com clareza que o projeto lulopetista é um projeto autoritário, estatista, regressivo em termos democráticos, que atua por meio da manipulação. Um projeto que tem, necessariamente, que perverter a política e degenerar as instituições para poder se realizar.

Carentes, em grande parte, de consciência democrática, os chamados “formadores de opinião”, sobretudo na imprensa, confundem popularidade com legitimidade e democracia com eleição. Como Lula tem grande audiência, pronto: ele tudo pode. Está acima do que faz o seu governo. Quando parte significativa do governo Lula cai no crime e chafurda na lama da corrupção, é como se Lula não fosse o responsável maior, o chefe.

Vejamos um exemplo recente. A direção nacional do PT acabou de assinar um manifesto de apoio ao fechamento, pelo ditador Chávez, da RCTV. Ninguém disse nada. Não houve qualquer manifestação minimamente articulada. Quem apareceu primeiro defendendo a democracia, no dia seguinte ao atentado bolivariano às liberdades, não foi o Tasso, nem aquele filho do César Maia, senão – vejam só! – o Sarney! É como se Lula não fosse o chefe-maior do PT. Em qualquer nação civilizada do mundo isso seria um escândalo. Aqui não: parece que sai na urina! E as oposições? Ora, ora… as oposições!

E ninguém das oposições foi capaz de lembrar que Lula – por dezenas de vezes – hipotecou todo o seu apoio e solidariedade ao coronel Chávez. E ninguém das oposições foi capaz de lembrar que Lula disse, não uma, senão várias vezes, que Chávez é o maior democrata que ele já conheceu. Que Chávez peca “por excesso de democracia”. Que havia uma armação das elites para demonizar Chávez.

Chávez, segundo Lula, pode tudo porque convocou muitas eleições e venceu todas. Ora, Lula também teve muitos votos. Logo…

E ninguém percebe – e as oposições não dizem, porque não concluíram isso – que a essência do projeto de Chávez é a mesma essência do projeto de Lula. Que Lula não age como Chávez, não porque não queira, mas porque não pode, dada a maior complexidade da sociedade brasileira. Que a manipulação lulista é a forma possível de autocratização da democracia nas condições do Brasil.

E ninguém vê que estamos nas mãos de bandidos. Sim, bandidos mesmo, no sentido literal do termo, integrantes de um bando, de uma gangue política que capturou a institucionalidade e está conseguindo operar uma tenebrosa transição dos valores éticos e democráticos. Sim, porque quando (quase) todos os senadores da República – inclusive os mais destacados chefes oposicionistas – aceitam as explicações furadas de um Renan para abafar mais um escândalo em nome da manutenção de um condomínio político, é sinal de que já foram perdidas todas as referências. É sinal de que a política foi reduzida à pura manipulação, ao jogo mais raso, mais várzeo, de interesses.

A perversão da política operada consciente e voluntariamente pelos estrategistas do lulopetismo é uma espécie de vacina contra a reprovação social e a punição institucional do mal-feito. Não adianta as várias facções da Polícia Federal – que também foi politizada e corporativizada de alto a baixo – fazerem mais duas, mais dez, mais cem operações espetaculares. Cada nova quadrilha (aparentemente) desbaratada significa mais uma dose de imunização contra o império da lei. A cada nova manchete revelando as ligações entre titulares do governo Lula e o submundo do crime, Lula – ao invés de se enfraquecer – sai fortalecido.

É inacreditável. Na ausência de oposição, é como se Lula fosse da oposição, como se ele não tivesse indicado os ministros e os cargos de confiança continuamente flagrados cometendo toda sorte de ilicitudes.

Corrupção sempre houve, em maior ou menor grau. O que nunca houve – e a inteligência nacional não vê, em grande parte porque as oposições não deixam – é o uso estratégico da corrupção pelo Estado, como parte do projeto de poder de um partido que se comporta como uma gangue política.

É claro que a maior responsabilidade pela construção desse ambiente degenerativo cabe às oposições, em especial aos tucanos e aos pefelistas. Guardem bem o nome dos atuais líderes oposicionistas. Eles merecem ser lembrados no futuro – oxalá mais favorável – como os avalistas do maior processo de desconstituição dos valores democráticos já ocorrido em nossa histórica republicana.

Torço para que meus bisnetos possam estudar, nos livros escolares, essa passagem infeliz de nossa história, para que as próximas gerações possam manter, vivos na memória, os nomes desses vacilantes, lenientes, coniventes e colaboracionistas. E que possam participar de renovados rituais democráticos de execração pública desses irresponsáveis.

Por ora, o jogo está perdido. Mas se quisermos nos precaver, no futuro, contra outros ataques de bandidos na política brasileira, seremos obrigados a não-esquecer o que as oposições deixaram que eles fizessem com o país na primeira década deste milênio, ensejando a generalização de um apagão intelectual e moral sem precedentes na sociedade brasileira.

Publicado em 02/06/2007

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